Vi o filme da Laura Carreira no início de Fevereiro e posso dizer-vos que “On Falling” se torna uma camada extra de pele, entre a epiderme e a derme. Uma camada que se faz presente, como uma membro dormente que demoramos a recuperar.
A Aurora, protagonizada pela Joana Santos, é uma mulher portuguesa na Escócia, que trabalha num armazém onde recolhe as compras que fazemos para serem posteriormente distribuídas. Eu digo nós, porque das gerações mais novas, passando pelo minha e até pelo menos à dos nossos pais (60-65 anos), todos sucumbimos às compras on-line.
Observar a realidade da Aurora de perto - a direção foi sublime, porque nos obriga a acompanhar a protagonista num armazém gigante mas sempre em planos próximos e confinados - alertou-me mais uma vez para o perigo de ignorarmos a cadeia de abastecimento das compras que fazemos.
A Aurora, como todos os seus colegas, está num buraco: salários baixos, prémios de performance ridículos e humilhantes, e a ideia de que o sistema está montado para que o trabalho seja mais “entusiasmante”, onde uma promoção perpetua a pirâmide que se alimenta sempre de baixo para cima, e quem está na base, ora! que lute entre si pelas migalhas!
A Joana, oferece-nos uma prestação brilhante, de uma mulher silenciosa, engolida e sempre a cair. A tristeza é tão palpável que sinto que ainda a trago comigo. Ver Aurora atingir um novo fundo, quando o seu telemóvel se parte, a sua necessidade de o arranjar - a dependência de qualquer coisa que se assemelhe a uma conexão - coloca-a numa posição de desespero, sem conseguir comprar comida e pagar contas, enquanto perde vertiginosamente o controlo da sua vida.
Procurar um emprego novo é sempre uma batalha, mas quando se está numa depressão profunda, a exposição poderá levar à rutura. A Laura explora esta ideia, que só é possível permanecer vivo nas circunstâncias da Aurora, através de um estado de dissociação permanente.
Foi com um cérebro refém destes pensamentos, que me cruzei umas semanas depois com “Baby Blue”, uma novela gráfica da sueca Bim Eriksson. Bim tem sido elogiada pelas suas ilustrações arrojadas e envolventes, e pela sua voz política corajosa. Nesta história ela apresenta-nos uma distopia, onde o governo controla e administra medicação a todas as pessoas que se atrevem a demonstrar emoções negativas.
Neste Universo, os livros e a música foram banidos, as emoções negativas são ilegais porque não contribuem para uma sociedade melhor. A protagonista, Betty, não consegue evitar sentir, terminando num centro de reabilitação para transgressores.
Apesar destes temas serem frequentemente explorados em vários meios artísticos, Bim traz frescura, integrando uma resistência feminina na história, explorando temas queer sem se deixar distrair do comentário político, enquanto nos faz acreditar que há esperança.
Betty, Aurora e estes Universos de Laura e Bim, são simultaneamente verdade e consequência. Num mundo capitalista e cada vez mais centrado no indivíduo, para a máquina continuar a funcionar, é preciso vergar a população e torná-la complacente, obrigar a cair e retirar alternativas de recuperação.
E a classe social aqui, importa. Em ambas as histórias, não estamos a falar de pessoas com apoio familiar, financeiro ou uma comunidade próxima e disponível: “Fatores como o sexo, classe, cultura e normas sociais, determinam sempre como um estado mental ultrapassa um limite e converte alguém num paciente…” - diz-nos Bim.
O desespero neste contexto parece ter dois fins possíveis: uma vida de depressão e dormência que permite apenas um estado de semi-existência, ou a morte.

